Sunday, November 05, 2006

A CIDADE DO SONHO

Autor: Carlos Henrique Rangel

Em uma cidade não muito distante, havia um homem que era muito rico, dono de muitas casas e lojas chamado Luciano. Um dia Luciano resolveu demolir uma velha casa que ficava no centro da cidade.

- Uma cidade precisa crescer... E para crescer é preciso fazer coisas novas e modernas. O futuro é o concreto e os arranha-céus. Cidade progressista é aquela que tem grandes edifícios de concreto. Progresso, progresso, é disto que precisamos, uma cidade que acompanha o seu tempo...Por isso vou demolir esta velha casa e construir um lindo prédio. Nossa cidade não pode parar no tempo. Temos que acompanhar o progresso do mundo... – Dizia a todos o senhor Luciano com orgulho.

Muitas pessoas não se importaram. Alguns garotos e velhos não gostaram.

- É um absurdo o que o Senhor Luciano vai fazer. Ele não pode demolir o casarão. – Disse o menino Gabriel.

- Bobagem existem tantos... Um não vai fazer falta...- Falou um homem.

- Vai sim... É assim que começa, primeiro derrubam um, depois outro... Uma casa ali outra acolá... E ai lá se vai a nossa memória... – Rebateu o velho senhor Juca.

- Deixem que ele faça o que quiser, a casa é dele... – Disse uma moça.

- Não acho isto certo, com a destruição do casarão toda a cidade perde... – Falou o menino Gabriel.

- Isto mesmo temos que defender a nossa cidade. Se nós que moramos aqui não fizermos nada, ninguém mais fará. – Disse Pedro, o dono do cinema local.

- Vocês deviam é cuidar das suas vidas, deixem o homem fazer o que quiser. – Falou novamente a moça.

- Isto não está certo... Ele não tem o direito de destruir parte da história de nossa cidade...

- Tudo bem, mas o que vamos fazer?... O que podemos fazer? – Perguntou o senhor Juca.

- Não há nada a fazer... A não ser que vocês tenham muito dinheiro para comprar o casarão... – Disse um homem rindo.
- Vamos falar com o Senhor Luciano, quem sabe conseguimos convencê-lo. – Falou Gabriel.

- Boa idéia menino. Vamos lá na mansão falar com o Senhor Luciano, tenho certeza que ele vai mudar de idéia.

- Isto mesmo temos que defender a nossa cidade. Se nós que moramos aqui não fizermos nada, ninguém mais fará.... Estranho, acho que alguém já disse isto...

Montaram uma comissão e foram até a mansão do homem rico, pedir para que não destruísse a casa.

- Quanta gente, a que devo a honra desta visita? – Perguntou Luciano.

- Senhor Luciano, Estamos aqui para pedir que em nome da história de nossa cidade não destrua o casarão... – Disse Gabriel.

- Por que não? Ele é muito velho, já deu o que tinha que dar...

- Por isto mesmo. Por que é uma casa do tempo em que a cidade nasceu.

- Quantas coisas aconteceram ali... Alegrias e tristezas. Festas, aniversários... Velórios... – falou o velho senhor Juca.

- Daquelas janelas, quantos olhares viram o tempo passar, a vida passar... – Lamentou outro velho.

- Lembro da Mariazinha sua avó, linda e faceira na sacada de sua janela sorrindo para todos que passavam...Os homens passavam devagar olhando apaixonados... – Continuou o velho senhor Juca.

- Era linda... Olhos brilhantes, lábios vermelhos como morangos... Dançávamos no grande salão nas festas de aniversários... A banda tocava lindas canções de amor e Mariazinha flutuava... Namorei ela, lembra?

- Sim, mas foi o avô do Senhor Luciano que casou com ela...

- Chega de falar em minha avó que já morreu há muito tempo... A casa está abandonada agora... Ninguém mais vive lá... O que passou, passou... – Gritou Luciano com raiva.

- Pode ser usada. Nossa cidade precisa de uma Biblioteca Pública.

- Uma casa de cultura. – Disse um menino.

- Porque não um museu!? Nossa cidade não tem museu...
- Chega! Que engraçado, vocês falam da casa como se fosse de todo mundo...Já decidi, vou construir no lugar um prédio enorme, cheio de lojas. E vocês... Saiam da minha casa, me deixem em paz. – Falou Luciano nervoso.
- Mas Senhor Luciano...

- Chega de mas... O casarão é meu e faço o que quiser... No futuro vocês vão me agradecer...

O grupo foi embora triste por não ter conseguido convencer o homem rico.

- Que atrevimento deste povo vir aqui na minha casa e me dizer o que eu devo fazer com o casarão... Ora bolas, Biblioteca... Vejam só...

Luciano então fechou a porta de sua casa e foi deitar no sofá da sala ainda com raiva.
E dormiu. E sonhou. Sonhou que estava numa rua barulhenta, cheia de carros, onde quase não se via o Sol por causa dos prédios.

Luciano andava pela rua em meio a multidão nervosa. Havia muita gente. Gente triste e suada por causa do calor que fazia. Luciano olhava para um lado e para o outro e não via uma árvore. Os prédios pareciam iguais. As pessoas pareciam iguais. Caminhou então pela rua até chegar em uma praça. Uma praça sem árvores, com uma igreja enorme de concreto.
Luciano a achou feia. Sentou em um banco da praça e ficou vendo todo aquele barulho, sentindo muito calor e muita saudade de sua cidade.

- Que cidade é essa? Que lugar triste e feio. Onde será que estou? – Lamentou sem entender nada.
Resolveu saber perguntando a alguém: Um menino que passava.

- Ei menino, que cidade é essa?
O menino riu.

- Ora senhor Luciano, não reconhece? Essa é a sua cidade.

- Minha cidade? Mas onde estão os casarões? Onde está a Matriz? E a praça?

- Os casarões foram demolidos, eram muito velhos. A Matriz, ora, o Padre quis uma igreja maior.

- E a praça? Onde está aquela bela praça cheia de árvores?

- Está aí, não esta vendo?


- Mas não pode ser... Onde está a casa do Manuel, meu amigo? E a casa da Dona Cotinha...? Onde está a padaria do seu Juca? E o cinema, onde eu costumava ir ver os filmes de aventuras...?
Luciano não conseguia entender. Aquela não parecia a sua cidade.
Não havia mais nada que lembrasse o seu passado.
- Ei você, O que aconteceu com o cinema? – Perguntou a um transeunte.

- Ah... Aquele monstrengo? Foi demolido, Ninguém mais ia assistir filmes lá.

- Mas era tão bonito... E a padaria do seu Juca, o que aconteceu com ela?

- Ora seu Luciano, Todo mundo agora compra pão na padaria moderna lá do Supermercado.

- Eu não entendo mais nada... Onde será que está a minha mansão... Ficava aqui nesta rua...

Saiu andando procurando a sua mansão. Não encontrou.
Em seu lugar havia um feio edifício de vinte andares.

- Nossa Senhora, cadê a minha casa? Quem foi o atrevido que construiu este prédio aqui?

Saiu caminhando triste pela avenida Principal. Barulhenta e cheia de placas, não lembrava em nada a avenida que conhecia, cheia de árvores e casarões coloridos.
Chegou finalmente enfrente a um velho prédio que estava sendo demolido.

- O que está acontecendo?

- Estamos demolindo este prédio. Foi o primeiro da cidade, mas agora não serve mais, vão construir um prédio mais moderno em seu lugar.

- O primeiro?

- É, não se lembra Senhor Luciano? O senhor demoliu o casarão que existia aqui e construiu este prédio.

- Eu? – Perguntou espantado Luciano.

- Sim Senhor. Depois deste vieram os outros.

- O padre gostou da idéia e demoliu a velha igreja...

- O prefeito achou que as árvores da praça e da avenida escureciam a cidade e mandou cortar...

- Ficou melhor não acha?

- Não, não acho... Faz um calor danado aqui... Não tem sombra, nem canto dos pássaros... O povo parece triste e apressado... Os prédios são feios e iguais... Não sobrou nenhum casarão?

- Claro que não. Nossa cidade é moderna. – Disse o homem.
- E ser moderno é isso? Não reconhecer mais nada na nossa cidade? É ficar perdido como se estivéssemos em terra estranha?

Luciano começou a chorar... E foi chorando que acordou. Levantou depressa e correu para a janela. Lá fora a cidade brilhava com seus velhos casarões coloridos. A torre da igreja despontava alta e pássaros cantavam nas árvores da avenida. Luciano limpou o suor da testa aliviado e correu para o casarão. Aquele que ele queria demolir e os velhos e garotos queriam salvar.

Luciano chegou a tempo de impedir a sua demolição.

- Parem os trabalhos. – Gritou com toda sua força.

- O senhor não vai mais demolir o casarão? – Perguntou um operário.

- Não. Este casarão faz parte da nossa história. Vamos transforma-lo em uma biblioteca, ou quem sabe em um museu. O certo é que não será mais demolido e voltará a fazer parte da vida de nossa cidade.

- E o progresso?

- Preservar nosso passado também é progresso. Os nossos casarões, sobrados, casas simples, nossas igrejas... Cheios de suor, lágrimas, alegrias, vivências, esperanças e fé do povo é que diferenciam a nossa cidade das outras. Nossas praças e ruas estão impregnadas das vidas de nossos bisavôs, avós e pais e merecem respeito. Nossas festas são as nossas festas... Diferentes das festas das outras cidades vizinhas. Progresso não é viver em uma cidade sem rosto igual a tantas outras. Progresso é conciliar o velho e o novo, as manifestações tradicionais com as novas tecnologias. Os prédios novos podem ser construídos em outro lugar fora do centro da cidade, sem afetar o nosso passado.

- Isto mesmo Senhor Luciano. Preservar é crescer com identidade... – Gritou um menino todo alegre.

- É continuar com dignidade... – Falou o Senhor Juca.

- Viva o Senhor Luciano! – Gritou um outro senhor.

- Viva ! – Gritaram todos.
E assim, gritando vivas o grupo de preservacionistas, operários e o Senhor Luciano se abraçaram felizes. Alguém trouxe um pandeiro, outros um tambor, uma cuíca e uma viola.
Toda a avenida Principal virou uma grande festa.

FIM

Saturday, November 04, 2006

A CIDADE DO PRIMO MAURO

Autor: Carlos Henrique Rangel

O ônibus parou na rodoviária da pequena cidade e Paulo desceu meio sonolento.

Olhou ao redor e prosseguiu em linha reta em direção à rua que parecia ser a principal.

Logo na primeira esquina encontrou um grupo de pessoas que observava alguns homens trabalhando e resolveu se informar.

- Por favor, poderia me dar uma informação? – Perguntou a um rapaz que estava mais próximo.

- Claro, o que você deseja saber?

- Estou procurando a Rua das Flores.
- É a minha rua. Quem você está procurando? Conheço todo mundo que mora lá. – Disse o rapaz.

- Procuro Mauro Junqueira, meu primo.

- Que coincidência, o Maurinho é meu vizinho. Levo-te lá, mas espera só um instante, deixa eu ver eles colocarem aquela janela.

- O que está acontecendo? Estão demolindo esta casa velha? – Perguntou Paulo.

- Estão restaurando.

- Está muito ruinzinha, não seria mais fácil deixar cair?

- Não, esta casa é muito importante para nós.

- É muito velha, neste terreno poderiam construir um prédio que seria muito mais bonito e importante...

- Esta casa faz parte da nossa cultura.

- Cultura?

- É, foi construída pelo fundador da cidade e está cheia de histórias,lembranças e vivências. Nós não conseguimos imaginar a Rua Principal sem ela. É parte da nossa identidade... Nossa memória.

- Tudo bem, mas vocês vão colocar umas portas e janelas modernas, né?

- A obra não é uma reforma. É uma restauração.

- Não vejo a diferença...

- A restauração não muda nada, mantém as mesmas características da construção, até mesmo as janelas e portas.

- Interessante... Mas e depois de concluída, o que vai ser?

- Vai ser a sede do Bispado.

- Pensei que ia ser um centro cultural.

- Nós já temos um centro cultural que ocupa um outro casarão histórico.

- É, eu já notei que a sua cidade é cheia de casas antigas.

- Tentamos preservar nossa história e as casas construídas pelos nossos bisavós e seus avós. Assim conservamos nossas raízes, nosso elo com o passado, nossa origem, nossa identidade coletiva, ou seja, o que nos diferencia das outras cidades.

- Mas desse jeito como fica o progresso?

- Preservar o nosso patrimônio não impede o progresso. Os dois convivem até muito bem.

- Patrimônio?

- É, patrimônio cultural é a nossa herança deixada pelos antepassados, as festas tradicionais, o nosso modo de falar e agir, os monumentos, as imagens, os acervos Arquivísticos, as construções antigas como os casarões e as igrejas e até mesmo as construções mais recentes que têm uma importância pelo estilo e beleza e que também são nossos bens culturais.

- Interessante, mas o progresso...

- É, eu estava te dizendo: nestes casarões do nosso passado, moram famílias que possuem televisão, vídeo e até computadores. É claro que todas possuem banheiros modernos.

- Assim é diferente. Eu pensei que toda casa antiga era como um museu.

- Não são. Elas podem ter várias utilidades: moradia, clubes, associações... Contanto que não sejam alteradas. O nosso centro histórico é todo tombado e nem por isto deixou de ter vida.

- Tombado?

- É, o tombamento é um instrumento legal utilizado para proteger um bem cultural. Quando uma casa, ou uma imagem, documento ou praça é tombado, não pode ser destruído ou mesmo ser modificado sem autorização.

- Qualquer bem cultural pode ser tombado?

- Infelizmente não... Somente os bens culturais tangíveis como as casas, praças, imagens, documentos é que podem ser protegidos pelo instituto do tombamento. Mas os bens intangíveis, ou seja, os que não podemos pegar podem ser preservados através de incentivos e registros.

- É? Mas quem decide isto?

- Ah, existe o órgão federal, o IPHAN que protege aqueles bens culturais que são importantes para o país. No Estado existe o IEPHA, que preserva os bens que são importantes para todo o Estado de Minas Gerais e nos municípios existem os conselhos municipais do patrimônio cultural que tombam os bens de importância local. O nosso centro histórico é tombado por decisão do Conselho Municipal que é formado por representantes de associações, escolas, prefeitura, câmara, igreja etc.

- Esse Conselho decide tudo sozinho?

- Não, a equipe do Departamento de Patrimônio Cultural da Prefeitura faz um estudo para justificar a importância do bem cultural chamado “dossiê de tombamento”, que é encaminhado ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural para ser analisado.

- Departamento de Patrimônio Cultural?

- É... Aqui em nossa cidade existe um departamento que faz estudos sobre os bens culturais. Em outras cidades existem chefias de cultura ou coordenação de patrimônio, mas têm a mesma função. A equipe técnica normalmente formada por historiadores, arquitetos e restauradores, elabora o dossiê com todas as informações sobre o bem cultural que vai ser tombado e encaminha ao Conselho.

- Interessante...

- O Conselho, depois que analisa o dossiê e decide pelo tombamento, encaminha uma notificação ao proprietário que tem quinze dias para se manifestar contra ou a favor. Vencido o prazo, o prefeito publica a decisão através de decreto no jornal da cidade.

- Eu não concordaria...
- Se não concordar tem que justificar. Aí o Conselho em uma nova reunião, decide pela manutenção do tombamento ou não, dependendo do estudo da documentação do proprietário.
- Se fosse minha casa eu não ia concordar... Vê lá se vou concordar em ficar sem minha casa...

- Mas você não fica sem a casa. Ela continua sendo sua.

- Mas não posso mexer nela...

- Você não pode é destruir ou reformar sem a análise e autorização do Conselho...

- Nem vender ou alugar...

- Pode sim, pode vender e alugar.

- Assim é bem melhor... Mas manter uma casa desta é muito caro, não é ?

- É, mas a Prefeitura dá isenção de imposto predial e fornece técnicos para ajudar nas obras de restauração. Em nossa cidade, as empresas ajudam porque também fazem parte da comunidade e a comunidade é a principal responsável por este patrimônio.

- Interessante... Mas vem cá, como é que o Departamento de Patrimônio Cultural e o Conselho decidem o que é importante preservar?

- Primeiro é preciso conhecer, não é? A equipe técnica do Departamento de Patrimônio Cultural faz um inventário de tudo que é importante no município com a ajuda da comunidade. Levanta informações sobre os casarões, sobrados, fazendas, igrejas, imagens sacras, festas, arquivos, sítios naturais, sítios arqueológicos e espeleológicos... Estas informações coletadas sobre os bens são postas em fichas com fotos. Depois de analisadas e discutidas com a comunidade, os bens são selecionados para serem protegidos através do tombamento.

- É muito trabalho... Mas me diga uma coisa, só o tombamento não resolve, não é?

- É... Você tem razão, só o tombamento não resolve. O inventário auxilia na elaboração do Plano Diretor e na elaboração da Lei de Uso e Ocupação do Solo, que é constituída de um conjunto de leis e diretrizes para normatizar uma política de desenvolvimento urbano, garantindo assim um crescimento mais ordenado da cidade, o bem-estar da comunidade e é claro, preservando o patrimônio.

- Nossa! Esse tal de inventário acaba sendo um registro muito importante...

- É sim. Mas também é importante a participação de todos na preservação, no cuidado constante. A substituição de uma telha quebrada resolve problemas futuros que ficariam muito mais caros. Discutir a preservação do patrimônio nas escolas é outra solução porque assim estaríamos formando novas gerações com outra visão sobre a sua cidade e seu passado.
- Eu gostei disto... E tem as empresas, não é?

- Como eu disse, as empresas podem ajudar muito. Existem as leis de incentivos federal, estadual e municipal que diminuem os impostos das empresas que investem na restauração do patrimônio cultural.

- Que legal...

- As Prefeituras também podem ajudar porque a lei n. º 13.803 repassa mais recursos do ICMS Patrimônio Cultural.

- Não entendi...

- Existe uma lei estadual, a n.º 13.803, que define critérios para o repasse de recursos do ICMS para os municípios. Um dos critérios é a proteção do patrimônio cultural. O município que investe na preservação do seu acervo cultural recebe mais dinheiro. Quanto mais investe, mais recebe.

- Quer dizer que é vantagem para todo mundo?

- Para todo mundo. A preservação da memória, dos marcos do nosso passado, das nossas raízes que nos fazem ser o que somos, nos enche de orgulho, prazer e de dignidade.
- Olha... Como é mesmo o seu nome?

- João.

- Prazer... o meu é Paulo... A gente conversou sobre tanta coisa e nem tínhamos nos apresentado...

- É...

- Olha, é muito legal tudo isto, tenho que saber mais sobre este assunto.

- No Departamento de Patrimônio Cultural o pessoal vai te passar mais informações.

- Vou procurá–lo depois.

- Sabe, Paulo, a coisa é lenta, mas vale a pena. Hoje somos um povo muito mais feliz. A qualidade de vida de nossa cidade é muito boa.
- A sua cidade é muito bonita. Muito legal o que vocês estão fazendo. Quando voltar para minha terra vou discutir isto com os meus colegas de escola.

- Bem, agora vou te levar para a casa do Maurinho.

FIM


EXERCÍCIOS


1- Dê alguns exemplos de bens culturais do povo mineiro.

2- O que uma comunidade pode fazer para proteger o seu patrimônio cultural?

3- Quais os critérios básicos que definem a importância de um bem cultural?

4- Defina Inventário de Proteção ao Patrimônio Cultural. Qual a sua importância?

5- De que maneira o empresariado pode atuar na preservação e quais as vantagens que pode obter?

6- Quais os bens culturais que podem ser protegidos pelo instituto do tombamento?
Porque?

7- Qual o papel do Departamento de Patrimônio Cultural?

8- Quem pode solicitar o tombamento de um bem cultural?

9- Como se inicia um processo de tombamento?

10- Quem pode impugnar o tombamento e como isto pode ser feito?

11- Quais as vantagens do tombamento para a comunidade?

12- Paulo pensou que estavam reformando o Casarão. Diferencie reforma e restauração.

13- Como preservar as manifestações folclóricas de uma comunidade?

14- O que pode ser feito para preservar um bem cultural que se encontra abandonado e em franco processo de arruinamento?

15- Procure em sua casa objetos que você considera patrimônio de sua família para a montagem de uma exposição na sala de aula.

16- Faça uma pesquisa ilustrada com fotografias sobre um bem cultural justificando a sua importância para a sua cidade.

JOSÉ E O CASARÃO

Autor: Carlos Henrique Rangel


José era um operário destes que fazem casas.

Que destróem casas.

Erguem edifícios onde havia casas.

Neste dia José não estava fazendo nem construindo edifícios.

Junto com outros operários estava demolindo uma grande e antiga casa.

Neste dia trabalhou muito, derrubando paredes com sua marreta, quebrando tijolos, destruindo pinturas.

Quando o dia terminou, sentou cansado em um degrau de escada.

Seus amigos foram embora, mas ele ficou mais um pouco olhando o trabalho feito. Adiantado, mas ainda não terminado.

Foi então que ouviu uma voz.

Voz rouca, quase distante.

- José...
- Quem está me chamando? Quem está aí? – Perguntou José se levantando.

- Sou eu José – disse a voz.

- Quem? Se mostre, por favor... – Pediu José assustado.

- Já estou me mostrando, estou em toda parte – Disse a voz.

- Não entendo... Que brincadeira é essa? – Perguntou José preocupado.

- Não é nenhuma brincadeira, José. Sou eu, a casa que você destroi.- Disse a voz.

- A casa? – Espantou José.

- Sim, a casa.

- Mas casas não falam – Respondeu José.

- Casas falam e sentem José...
- Devo estar sonhando...
- Não José, você não esta sonhando. Te vi aqui sozinho e achei que podia conversar com você.

- O que quer de mim? – Perguntou o operário tremendo.

- Apenas conversar... Apenas falar... Apenas lamentar...

- Lamentar?

- É... Eu sofro sabia? Sofro por deixar esta terra que eu ví crescer.

- Não sabia que as casas sentiam... – Exclamou José.

- As casas sentem sim. E têm memória também. – Disse a voz.

- Memória?

- É, me lembro ainda do primeiro tijolo que fui, da casa que me tornei... O belo casal que abriguei... Marina nasceu no quarto lá em cima. Depois veio Manuel... Manuel cresceu e se casou. Veio morar em mim. Marina também se casou mas não ficou. Foi para longe... Vinha de vez em quando... Quando os pais morreram parou de vir...
Foi Manuel que me mandou pintar com os barrados coloridos de frutas. Sua mulher me trocou os vidros por estes que você ajudou a quebrar...

- Desculpa – Pediu José.

- É ... Ao meu redor a cidade ia mudando...Crescendo, se povoando... Os carros puxados a cavalo foram substituídos pelos carros a motor... Manuel comprou um ford... Um dia a mulher do Manuel faleceu e ele ficou só com os filhos.

- Coitado... – Lamentou José.

- Marcos, Maria e Fernanda brincavam muito descendo e subindo estas escadas... Rabiscavam-me com seus lápis, me derramavam tinta... Manuel ficava com raiva e me consertava. Eu não ligava... Até gostava...

- O que aconteceu depois? – Perguntou José.

- Manuel ficou velho, os meninos cresceram, estudaram, casaram, mudaram... Quase não vinham mais... Eu e Manuel assistíamos as mudanças...As modas indo e vindo... O som do rádio, depois a televisão... Os prédios substituindo as casas amigas da vizinhança... Barulho, muito barulho... Aí Manuel morreu... Fiquei só de vez.

- Os meninos não vieram ficar com você? – Perguntou José com os olhos cheios de lágrimas.

- Ninguém me quis... Venderam-me, me esqueceram e aqui estou sendo demolida por vocês...

- Mas que injustiça – Disse José.
- É a vida José... – Disse a casa com sua voz fraquinha.
- Mas toda esta história... Tudo será destruído com você... – Exclamou José.

- Infelizmente é assim... Mas estou aliviada, pelo menos uma pessoa sabe.

- Em tantos anos destruindo e construindo casas, nunca havia pensado que as casas pudessem ter vida.

- Elas têm. Vidas impregnadas das vidas dos que a fizeram e habitaram. Nas paredes, nos lustres, no ranger de cada porta, um pouco dos habitantes permanece. A alma de um tempo, de vários tempos... Seus amores, suas dores, seus modos de viver e ver o mundo... Somos vivas porque abrigamos vidas... Muito mais que isto, abrigamos memórias...

José ficou pensativo.
- É noite José, eu já não tenho mais luz para te iluminar. Vá
para sua casa e pense em tudo que te contei. Amanhã eu
sei, não estarei mais aqui.

José não disse nada. Pegou sua mochila e saiu da casa em ruínas.
Amanhã ele não voltaria.
FIM

Friday, November 03, 2006

MEMÓRIAS

Autor: Carlos Henrique Rangel
Zé lembrava que era Zé,
Diminutivo do nome José.
Tinha idade e identidade.
Lembrava que tinha nascido
E se criado numa cidade com uma pequena praça.
Uma pequena igreja que viu o casamento dos pais e seu batizado
E seu casamento e as lágrimas do fim.
Zé lembrava dos bancos da praça.
Das árvores,
Das flores,
Das bolas jogadas,
Das moças...

Zé lembrava que um dia foi Zezinho, Garoto bonito, rei dos bailes...
Lembrava da escola que ficava na praça... De novo a praça...
A praça...
O mundo era a praça:
Da igreja,
Da escola,
Da casa da avó.
A praça das flores,
Das bolas, das moças...

Zé lembrava do fim das coisas:
Da escola substituída.
Dos jardins modificados.
Da igreja ampliada.
Do asfalto cobrindo as pedras...
Das moças já não tão moças...
Zé lembrava...
O mundo já não era a praça...
O mundo era maior:
Além da praça,
Além da cidade,
Além do país...

Mas Zé sabia...
Sabia que o Zé José
Só era Zé José
Por causa do mundo.
E o mundo do Zé José
Era a praça da igreja,
Da escola,
Da casa da avó,
Das flores e moças...
A praça de ontem,
A praça da infância,
Da adolescência,
Da juventude,
Dos cabelos brancos do Zé idoso...
A praça era o mundo.
O mundo do Zé José...

ATIVIDADES DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

Atividades de Educação Patrimonial que podem ser trabalhadas nas Escolas e comunidades:

ORGANIZAÇÃO: Carlos Henrique Rangel

AS ATIVIDADES:

A - ALGUMAS SUGESTÕES PARA TRABALHAR:
1 – As decisões com relação à proteção dos bens culturais devem ser compartilhada.
A - Para esse fim algumas reuniões do Conselho podem ser abertas.
B – O Conselho e a equipe técnica podem promover palestras e cursos referentes aos trabalhos a serem realizados, com distribuição de folhetos ou informativos explicativos.
C – A comunidade deve ser incentivada a ajudar e colaborar com os trabalhos: fornecendo materiais, dando informações, trabalhando nos projetos, fornecendo ajuda financeira,
D – Os resultados dos trabalhos podem ser apresentados à comunidade através de publicações e/ou exposições.
2 – É importante levar as questões relativas à preservação dos marcos culturais para dentro das escolas. O município poderá criar algum material de apoio em sua campanha para a conscientização e esclarecimento da comunidade:
- Cartilha do patrimônio cultural
- Jornal do Patrimônio Cultural
- Camisetas
- Álbuns de figurinhas
- Jogos diversos: jogo da memória, quebra-cabeças, etc.
- Palavras cruzadas
- Cartões postais
Calendários e outros.

B – Observação e Registro
- Identificação dos objetos: função/significado; desenvolvimento da percepção visual e simbólica.
- Fixação do conhecimento percebido, aprofundamento da análise crítica.
- Desenvolvimento da memória, pensamento logístico, intuitivo e operacional.

1- Conceitos a serem trabalhados dentro de sala de aula:
(Matérias: História – Geografia)
Você sabe o que é um bem?
Quais são os seus bens?
E os bens de sua família? Por que eles são importantes?
Quais são os objetos mais antigos da sua família?
Quando foram comprados ou produzidos?
A quem pertenceram e a quem pertencem atualmente?
Serviam ou servem para que?
Pergunte a sua mãe e a seu pai onde nasceram? quando nasceram?
Quantos irmãos tiveram? Onde estudaram? Onde brincavam? Como brincavam?
Quem são os seus pais? Quem são seus avós? Qual a profissão dos seus pais? Gostam do que fazem? Qual a profissão dos seus avós?
Você sabe o que é cultura?
O que seria um bem cultural? Porque eles são importantes?
Dê exemplos de bens culturais?
Você sabe dizer quais são os bens culturais de sua Cidade?
O que é Patrimônio Cultural?
O que é tombamento?
Quais os bens culturais tombados em sua cidade?

2- Jogo de Comparações – a ser trabalhado dentro de sala de aula:
(Matéria: História - Geografia)
- Foto antiga de uma rua comparada com a foto atual.
- O que existia e que não existe mais.
- O meio de transporte do passado e o atual.

- Como se vestiam as pessoas e como se vestem hoje.
- Faça uma entrevista com um parente mais velho sobre a sua vida na infância e
adolescência : onde morava, onde estudava, se trabalhava, como brincava, lugares que freqüentava, músicas que ouvia, como se vestia.

3 – Vamos montar uma “Caixa da Memória” ?
- Ponha na caixa os objetos pessoais e da sua família que se relacionam com fatos, acontecimentos e pessoas da família.
- Vamos fazer uma “Caixa da Memória” da cidade?
- Agora vamos contar um pouco o que significam esses objetos.

4- Questionário - Reconhecendo a cidade – a ser trabalhado dentro de sala de aula:
(Matéria: História, Geografia, Educação Artística)
1- Onde você mora?
2- Há quanto tempo mora no local?
3- Quantas pessoas moram na casa e quem são?
4- Faça um desenho da sua casa identificando os cômodos
5- Faça um desenho de todos os membros da sua família que moram na sua casa?
6- Qual o objeto mais importante da cozinha? Qual o objeto mais importante de cada cômodo de sua casa? Por que?
7- Entreviste cada um dos membros da sua família. Pergunte a eles quais os bens mais importantes de cada cômodo e porque são importantes?
8- Faça um desenho da sua rua localizando a sua casa, o comércio/padaria, se tiver, o prédio mais alto, a casa mais antiga.
9- Que objeto/imóvel ou lugar você considera mais importante na sua rua/quarteirão? Por que?
10- Pergunte a cada um de seus pais o que eles consideram mais importante na rua/quarteirão. Por que?
11- Entreviste o morador mais antigo do seu quarteirão:
Nome, endereço, quanto tempo mora na rua? O que ele considera mais importante na rua/quarteirão e por que.
Pergunte se ele tem fotos antigas da rua ou tiradas na rua. Peça emprestada para fazer uma cópia.
12 - Quais as mudanças mais importantes que ocorreram na rua? O que ele achou delas?
13 Você conhece a história da sua cidade? Como nasceu a sua cidade?
14 -Desenhe a planta da sua cidade localizando os lugares e os prédios ou casas mais importantes.
15 - Conte quantas escolas, cinemas, igrejas, praças existem na sua cidade.

16 -Quais os lugares de diversão que você mais freqüenta. Escreva uma redação sobre este local.
17 - Você sabe onde nasce o rio que passa por sua cidade? Qual a origem do nome do rio?
18 -Faça um desenho do rio desde a sua nascente até chegar a sua cidade, identificando os lugares por onde passa.
19 -Desenhe o caminho que você percorre para chegar na escola identificando as casas mais antigas.
20 -Quais são as festas mais importantes da cidade e onde acontecem. Descreva a festa que você considera a mais importante.
21 -Em sua opinião, qual o bem cultural mais importante da cidade. Por que?
22 - O que você acha que deve ser feito para se preservar os bens culturais da sua cidade.
23 - Quais os problemas que a sua cidade apresenta?
24 - Quais as soluções para estes problemas?
25 - Como é a sua cidade dos sonhos?

5- Elaboração de inventário do acervo cultural da cidade:
(Matéria: História e Geografia)
Para compor a exposição a ser realizada.

1- Levantamento a ser trabalhado referente aos bens culturais da cidade contendo informações históricas (construtor, época da construção, primeiros moradores,
usos, etc.) e fotografias.Utilizar uma planta cadastral recente da cidade ou localidade.
2- Utilizando uma cópia da planta cadastral da cidade, montar um painel para que os alunos colem as fotografias dos bens culturais mais expressivos na quadra ou região onde se localiza.
3 – Montar um mapa (planta cadastral) localizando os principais problemas da cidade.

6- Elaboração de um dossiê sobre um bem cultural:
(Matéria: História)
Pesquisa em grupo sobre um bem cultural considerado mais importante contendo sua história e descrição, fotografias, e justificativa de sua importância para a cidade.
Soluções para que seja valorizado, revitalizado e integrado à comunidade.

7- Visita Guiada1:
Para compor a exposição a ser realizada.
-Criação de um roteiro pelos pontos mais antigos da cidade, visitando prédios e museus. Utilizar um mapa antigo para poder fazer comparações com a atualidade.

Prepare o grupo (alunos ou comunidade) sobre o tema a serem trabalhados na visita. Exponha as tarefas a serem desenvolvidas durante a visita e o tempo para desenvolve-las. O trabalho deve ter continuidade dentro da sala de aula ou no local de reunião.

Pesquisa sobre o cotidiano da praça ou rua principal da cidade:
(Matéria: História e Geografia)
O que acontece na rua /praça? Quem freqüenta e o que faz? Por que freqüenta?
Existem áreas de lazer? Bares? Quadras? Coreto? Brinquedos?
Reconhecendo a Praça:
Qual a origem do nome da Praça? Se for uma personalidade histórica faça uma pesquisa sobre ela.
Desenhe a praça identificando os bancos, bustos, coretos, jardins, monumentos.
Que tipos de animais habitam a praça?
Identifique em um desenho as plantas que adornam o jardim. Nomes populares e científicos.
De onde vieram as plantas? Quem plantou?
Reconhecendo a Igreja:
Como chama a igreja matriz? Quando foi construída? Quem construiu? Qual o material utilizado para sua construção? Qual o Santo de Devoção? Pesquise sobre a vida do Santo: Como viveu, o que fez, como morreu.
Identifique os atributos da imagem. De onde veio a imagem? Quem produziu? Como foi adquirida?
Existe uma festa em homenagem ao Santo? Quando, onde e como acontece? Descreve a festa:
Entreviste o principal responsável pela festa usando o seguinte roteiro:
Nome:
Função na festa:
Quando surgiu a festa? Por que acontece a festa?
Quem financia?
Principais participantes:
Como acontece a festa: Início, meio, fim.

Como é o altar principal da igreja? Descreva o elemento decorativo que mais te chamou atenção.
Faça um desenho do interior da Igreja,identificando as principais imagens e onde estão localizadas.

8- Visita Guiada 2:
(Matéria: Geografia,História)
-Fazer uma visita guiada ao bem sob intervenção.
Quase são os profissionais envolvidos na obra?

Qual a função de cada um?
O que pretende a obra? Quais as fases da obra? Descreva.
Montar uma exposição com desenhos ou fotos da obra.
Depois da restauração/ intervenção o que vai acontecer com o bem cultural?
Você concorda com o futuro uso do bem cultural? Por quê? Se não, que uso gostaria que tivesse?

9- Montagem do Júri simulado:
(Matéria: História e Geografia)
Escolher um bem cultural com problemas que tenha sido identificado na visita guiada para ser o objeto de discussão.
Escolher quatro alunos para interpretarem os papeis de dois irmãos a favor da preservação e dois contrários à preservação.
Um grupo de alunos fará o papel do corpo de jurados.

10- Jogo de identificação:
(Matéria: História, Geografia, Educação Artística)
Utilizando fotografias / transparências de objetos e detalhes de prédios.
Dividir a turma em dois grupos. Os alunos terão que identificar os detalhes e objetos.

11- Pesquisa sobre os pratos típicos da cidade:
(Matéria: História) Para compor a exposição a ser realizada.

Recolher receitas de comidas típicas junto aos familiares ou conhecidos. Montar uma feira de alimentação com pratos típicos elaborados pelos familiares dos alunos.

12- Elaboração de um álbum de figurinhas referente aos bens culturais:
(Matéria: História)
Criar uma premiação para os três primeiros alunos que montarem o álbum.

13- Vista a um Museu:
(Matéria: História)
Leve os alunos a um museu local. Dê como tarefa a ser desenvolvida em grupo, uma pesquisa sobre o museu: quando foi criado? Quem criou? Porque criou, Como criou e montou? Tipo de acervo? Qual a peça mais interessante?

14- Montagem de um museu – a ser montado na escola:
(Matéria: Educação Artística) Para compor a exposição a ser realizada.

Recolha junto a seus pais, objetos antigos que tenham um importante significado para sua família: fotografias antigas, utensílio domésticos, objetos de uso pessoal etc.
Monte a exposição por assunto com os objetos identificados por legenda elaborada pelos alunos.

15- Fazer uma pesquisa sobre o folclore da região:
(Matéria: Educação Artística)
As danças típicas, lendas, provérbios. Fazer uma exposição do material encontrado.
Fazer a encenação de uma dança folclórica local no dia da exposição.
Quais os instrumentos utilizados na dança folclórica? Desenhe ou fotografe estes instrumentos.

16- Fazer um estudo das formas geométricas das edificações da cidade:
(Matéria: Matemática)
Fotografar janelas e portas, ladrilhos, detalhes diversos para serem identificados pelos alunos.

17- Montar gráfico referente a antiguidades ou tipos das edificações do município:
(Matéria: Matemática) Para compor a exposição a ser realizada.

Quantas casas do século XVIII? Quantas do século XIX? Quantas do século XX?
Quantas igrejas, quantos prédios públicos, quantas casas térreas, quantos prédios.

18- Pesquisa sobre o custo de material para a construção de uma edificação.
(Matéria: Matemática)
Fazer uma relação do material utilizado na construção de uma edificação e pesquisar em depósitos e casas especializadas o valor do material.

19- Elaborar problemas sobre números de edificações e usos.
(Matéria: Matemática)

20- Identificar as formas geométricas nas construções:
(Matéria: Matemática)
Utilizar uma edificação para que os alunos identifiquem as formas.


21- Identificação dos tipos de habitações da cidade ou localidade:
(Matéria: Ciências)
Identificar e analisar os tipos de materiais utilizados para a construção das edificações.
(tijolos, adobe, pau-a-pique, madeira, etc).

22- Pesquisa sobre a fauna e flora da região:
(Matéria: Ciências) Para compor a exposição a ser realizada.
Elaboração de uma pesquisa sobre as plantas e ou dos animais encontrados na região.
Identificar animais extintos e a causa de sua extinção.
Fazer um cartaz com desenhos /fotos dos animais identificando os locais onde são encontrados ou existiam.

23- Fazer uma comparação da forma de abastecimento de água e alimentos no passado e atual:
(Matéria: Ciências)
Como a água chegava nas casas no passado? E Atualmente?
Como os alimentos eram e são transportados?

24 – Divida a turma em grupo para pesquisar causos ou lendas do município.
Cada grupo deve escolher um causo/lenda para encenar no dia da Exposição.

C – Exploração e Apropriação
- Desenvolvimento das capacidades de análise e julgamento crítico, interpretação das evidências e significados.
- Envolvimento afetivo, internalização, desenvolvimento da capacidade de auto-expressão, apropriação, participação criativa, valorização do bem cultural.

As atividades poderão compor uma exposição na escola aberta à comunidade:

1- Elaborar um concurso referente à eleição do bem cultural símbolo da cidade. Para compor a exposição a ser realizada.

(Matéria: História)
Fazer uma lista com pelo menos 4 bens culturais mais expressivos da cidade e montar equipes de alunos para a promoção e defesa de cada bem.

2- Pesquisa sobre o estado de conservação dos rios e do solo, do ar:
(Matéria: Ciências)
Identificar problemas de poluição e as ações para soluciona-los.

3- Montar um Guia turístico bilíngüe:
(Matéria: Língua Inglesa e espanhola)
Informações sobre a cidade, roteiros turístico.

4- Resgatar os brinquedos antigos:
(Matéria: Educação Física)
Fazer um levantamento das brincadeiras antigas e implementa-las.

5- Fazer uma pesquisa sobre as atividades artesanais e artísticas:
(Matéria:Educação Artística) Para compor a exposição a ser realizada.

Que tipo de atividade existe na cidade. Identificar os artesãos e suas atividades.
Promover uma visita a um atelier de arte para familiarizar os alunos com a produção artística.
Como são produzidos os trabalhos? Que tipo de material utiliza? Onde expõe? Como vende os produtos? Para quem vende?
Identificar os principais problemas relacionados com a atividade. Quais as soluções possíveis para os problemas?
Fazer uma exposição de peças produzidas na cidade.

6- Fazer maquetes de edificações ou espaços:
(Matéria:Educação Artística) Para compor a exposição a ser realizada.
Montagem de maquetes de papelão, madeira, isopor ou qualquer material disponível.

7 - Montagem de um Jornal histórico sobre a cidade:
(Matéria: Português, História)
Narrar os principais acontecimentos que ocorreram na cidade como se fossem matérias de jornal.
Outra abordagem que pode ser utilizada é escolher um certo período histórico e pedir para que os alunos narrem os fatos como se fossem matéria de um jornal.

8 - Concurso de redação sobre o tema:
(matéria: Português)
Elaboração de um concurso de redações entre os alunos referente ao Patrimônio Cultural com a premiação dos três primeiros lugares.


9- Montagem de uma Cartilha:
(Matéria: História, Português, Educação Artística)
Familiarizados com os conceitos e toda a problemática relacionada com o patrimônio cultural da cidade, os alunos poderão criar cartilhas do patrimônio cultural ilustradas.

10 - Montagem de uma peça teatral – a ser encenada na escola e locais públicos:
(Matéria: Português, Educação Artística) Para compor a exposição a ser realizada.

A peça pode ser criada pelos professores juntamente com os alunos ou escolhida em concurso entre os alunos.

11 - Elaboração de lista de ações prioritárias em defesa do patrimônio cultural.

12 – Elaborar uma palestra para pais e alunos referente aos trabalhos de educação patrimonial. Conceitos a serem trabalhados: bem cultural, cidadania, memória, identidade, patrimônio cultural, defesa do patrimônio cultural, importância dos trabalhos relacionados com a preservação do patrimônio cultural (Inventário, dossiês, restauração, conservação e registros).

D - ALIMENTAÇÃO/CULINÁRIA: SUGESTÕES DE ATIVIDADES A SEREM TRABALHADAS

Objetivos:
- Apreensão e compreensão de todo o processo produtivo dos alimentos e das relações sociais e culturais envolvidas.
- Estimular a percepção das paisagens rurais e urbanas e suas diferenças.
- Reconhecer os fazeres e saberes das comunidades locais.
1 – Onde você mora?
2 – Quantas refeições você faz ao dia?
3 – O que come no café da manhã, no almoço e no jantar?
4 – O que come no recreio?
5 – Vocês sabe o que come o seu vizinho? Pergunte aos seus vizinhos o que mais gostam de comer.
6 – De onde vem os alimentos que você consome?
7 - Você tem horta em casa? O que planta?
8 – Onde compra os alimentos?
9 – Qual o principal produto agropecuário do seu município?

10 – Como é plantado/criado? Você sabe de onde veio e como chegou ao Brasil / Minas Gerais/ Município? Quantas espécies/raças existem e qual a diferença? Faça uma pesquisa.
11 – Você come esse produto? Quando come? Porque come?
Quais as formas de preparo deste alimento? Descreva-as minuciosamente.
12 – Faça uma pesquisa para descobrir como os outros municípios /Estados e países utilizam esse produto. Recolhe receitas locais e compare com as receitas de outros lugares.
13 – Você costuma consumir esse produto em outros locais? Quais?
14 - Quais os alimentos que o acompanham? Quais os caminhos que o alimento percorre até chegar em sua mesa? Quais as bebidas que acompanham esse alimento?
15 – Seu município exporta esse produto? Para quais municípios/Estados/País? Quanto é exportado?
16 - Como é colhido/criado esse produto?
17 – Os trabalhadores rurais comem esse produto? Compram? Ganham do patrão?
18 – Quais os alimentos que acompanham esse produto nas refeições dos empregados?
19 - Há quanto tempo esse produto é produzido no seu município?
20 – Faça uma entrevista com um proprietário de uma fazenda Como vive? Onde mora? Como é a sua casa? (Como é construída? Quantos cômodos tem? Quem construiu? Quando construiu? Casa própria? Alugada? Emprestada? Quantas horas trabalha? Como se locomove para ir ao trabalho e para ir a cidade)
21 - O proprietário tem fotografias antiga da fazenda? Pode emprestar para uma exposição?
22 – Faça uma entrevista com um empregado da fazenda: Como vive esse empregado? Onde mora? Como é a sua casa? (Como é construída? Quantos cômodos tem? Quem construiu? Quando construiu? Casa própria? Alugada? Emprestada? Quantas horas trabalha? Como se locomove para ir ao trabalho e para ir a cidade)
23 – Como são os caminhos/estradas que ligam a fazenda à cidade? O que se vê no caminho? (povoados, lugarejos, fazendas, mata, cachoeiras, rios, pontes) descreva e ilustre esse caminho.
24 - O empregado tem fotografias antiga da sua família e sua casa? Pode emprestar para uma exposição?
25 – Quantas vezes o empregado vai a cidade e em quais ocasiões?
26 – Como é a roupa de trabalho e a roupa de festa do empregado e do proprietário?
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27 - Os proprietários estão organizados? Os Empregados estão organizados? Como? Há quantos anos?

28- Existem festas motivadas por esse produto? Quem financia? Quando acontece? Onde acontece? Como acontece? O que acontece? Descreva todas as fases desta festa. Consiga fotografias antigas e recentes da festa
29 – Quais as ocasiões em que esse alimento é consumido? (dia a dia, festas, comemorações, etc)
30 – Faça um registro fotográfico/desenhos/pinturas de todo o caminho percorrido pelo produto até chegar em sua mesa.
31 – Utilizando mapas, e plantas da cidade, localize as principais fazendas produtoras deste alimento e os locais onde é vendido.
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32 – Entreviste pessoas idosas: Hábitos alimentares do passado. Existe algum alimento do passado que não se encontra mais? Qual? Como era preparado? Porque deixou de ser preparado?
33 – Entreviste a cozinheira da cantina da Escola: Onde mora? O que come no café da manhã antes de ir para a escola? Como se locomove para ir a escola? Há quanto tempo trabalha na escola? Com é definido o cardápio da escola? O que ela mais gosta de preparar? Solicite a receita.
34 – Faça um levantamento de todos os estabelecimentos comerciais existentes no percurso entre a sua casa e a escola. (nome, endereço, proprietário, quantos anos funciona, quantos anos tem, quando foi construído o imóvel, principais produtos vendidos).
35 - Entreviste um feirante ou comerciante. – Fazer uma feira na escola utilizando produtos doados pelo comércio local/com pratos típicos do município/região preparados pelos pais dos alunos e pelos diretores e professores.
Nesta ocasião poderá ocorrer a exposição dos mapas, fotografias antigas e recentes e dos trabalhos produzidos pelos alunos.

METRÓPOLE A TRAJETÓRIA DE UM ESPAÇO CULTURAL

Carlos Henrique Rangel e Cristina Pereira Nunes – Historiadores

Em 1993, a Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte promoveu o Projeto Agenda Metrópole para celebrar a memória do Cine-teatro Metrópole, demolido em 1983. O projeto teve como proposta sensibilizar e mobilizar a sociedade para as questões referentes à importância do Patrimônio Cultural e suas formas de preservação.

Integrando uma série de atividades realizadas pelo Agenda Metrópole, foi desenvolvida uma pesquisa histórica visando o resgate da trajetória do importante espaço cultural construído no centro de Belo Horizonte, na tradicional rua da Bahia, palco da vida boêmia e cultural da cidade. Desse trabalho, resultou a publicação “Metrópole, a trajetória de um espaço cultural”, lançada pela Secretaria Municipal de Cultura. Agora, passados mais dez anos deste triste acontecimento, relembramos a história para que de certa forma ajudou a formar uma nova consciência preservacionista em Belo Horizonte.

Do Teatro Municipal ao Cine Metrópole –

Belo Horizonte foi planejada no final do século XIX, sob a égide do regime republicano que consolidou o projeto de mudança da sede do governo mineiro da antiga Ouro Preto.

A substituição da paisagem setecentista do arraial de Curral Del Rei pela instalação da capital configurou o estabelecimento de um empreendimento surpreendente e revolucionário, consolidando uma radical intervenção no espaço.

Balizada pelo cenário urbanístico moderno, marcado pela influência francesa, a cidade traduziu os valores e padrões europeus do século XIX. Neste contexto, inseriu-se a construção do Teatro Municipal, iniciada em 1906 pela prefeitura de Belo Horizonte. As linhas do novo prédio inaugurado em 1909 reverenciaram as aspirações da arquitetura ao gosto do ecletismo em vigor na época, realçando com sua beleza e programação cultural a vida da capital e de seus habitantes.

A partir da década de 30, após um período marcado por polêmicas sobre uso e tamanho, o teatro passou por mudanças que transformaram o curso de sua história.

Nessa época, a arquitetura brasileira empreendeu passos definitivos na busca de uma nova linguagem arquitetônica.
A renovação da paisagem urbana foi expressa em edificações construídas seguindo tendências geometrizantes, com o uso de formas retilíneas, revestimentos em pó-de-pedra e simplificação ornamental. Sob este clima inovador, instalou-se o art-déco no cenário de Belo Horizonte.

Refletindo essa tendência, o Teatro Municipal sofreu reformas que o transformaram em expressivo documento do estilo art-déco. Ao aproveitar o arcabouço do antigo prédio, foram acrescidos novos volumes e tratamento geral.

O destino do Teatro Municipal foi, no entanto definido pela administração do inovador prefeito Juscelino Kubitschek definiu o destino do teatro que resolveu dotar a capital, um dos centros mais adiantados do país, de obra melhor e mais moderna, destinada exclusivamente às artes – o futuro Palácio das Artes.Como conseqüência, o poder público se desfez do teatro em 1941. O novo proprietário, a empresa Cine Teatral Ltda, transformou o edifício em luxuoso cine-teatro.

Com o sugestivo nome de Cine-teatro Metrópole, em homenagem à capital, foi inaugurado em 1942 um moderno e confortável espaço, com capacidade para um mil espectadores. Seu traçado traduziu o sabor de formas simplificadas, seguindo padrões geométricos e linhas retas, em oposição ao ecletismo do antigo Teatro Municipal.

Em 1943 o espaço foi vendido a Cinemas e Teatros Minas Gerais e continuou como importante área de lazer dos belo-horizontinos durante os 40 anos que se seguiram, com uma programação diversificada de filmes e espetáculos musicais e teatrais.

O Caso Metrópole -

Com a anistia e a reforma partidária, no processo gradual de abertura política iniciado a partir de 1979, a oposição chegou ao poder em 10 estados brasileiros, legitimada pelas eleições para governadores realizadas em 15 de novembro de 1982.

Tancredo Neves venceu em Minas Gerais pela legenda do PMDB e se firmou como um dos principais líderes políticos com capacidade de empreender a transição para a normalidade democrática. No entanto, não só em Minas Gerais como em outros estados onde venceram as eleições, governadores oposicionistas e setores da elite que os apoiaram adaptaram-se à estrutura autoritária vigente, pouco se diferenciando dos governadores do PDS, partido situacionista.

Paralelamente, em 1983 foi intensificado o agravamento da crise socioeconômica do país, com desdobramentos que acarretaram desemprego, queda no comércio e fome, até mesmo em regiões mais desenvolvidas. Nesse contexto de grandes transformações, inseriu-se a luta pela preservação de um dos mais importantes símbolos culturais de Belo Horizonte – o Cine-teatro Metrópole.

A capital dos anos 80 se transformava em meio à crise vivida pelo país. Os marcos do passado desapareciam e com eles os referenciais que a caracterizavam, individualizando-a para seus habitantes. Um dos remanescentes da época áurea do cinema, o Metrópole conservava a imponência de um templo, responsável por grandes lançamentos de filmes. Seu estado de conservação atendia às exigências da demanda moderna, permanecendo como importante referencial arquitetônico e cultural da cidade.

Em 15 de abril de 1983, o Banco Brasileiro de Descontos – Bradesco – pagou à Cinemas e Teatros Minas Gerais Cr$ 150 milhões como sinal pela compra do Cine Metrópole.

A notícia da venda do cinema a um banco teve repercussão imediata. Os principais jornais noticiaram a transação, ressaltando a importância histórico-cultural da casa de espetáculos e lamentando a perda de mais um espaço de lazer na cidade.

Na tentativa de reverter à situação, entidades culturais como a Coordenadoria de Cultura, o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG, e a assessoria técnica da Fundação João Pinheiro se mobilizaram. Ao IEPHA/MG, coube a elaboração de pesquisa histórico-arquitetônica sobre o cinema, visando à montagem de um dossiê de tombamento, e ao diretor da assessoria técnica da Fundação João Pinheiro a redação de um decreto de desapropriação e de utilidade pública, a ser entregue à Assessoria Técnico-Consultiva do governo do Estado.

Em 22 de abril de 1983, o governador Tancredo Neves determinou a elaboração de um decreto de utilidade pública, baseado na importância histórico-arquitetônica do prédio. Apesar de elaborado, o decreto não chegou a ser publicado e nenhuma explicação foi dada sobre o fato.

Em 27 de abril, a empresa proprietária entrou com pedido de demolição do Cine Metrópole na Secretaria Municipal de Obras. Seguindo a orientação do IEPHA/MG, a Secretaria negou a solicitação, aguardando a publicação do decreto governamental.

Enquanto isso, o cinema funcionava a todo vapor, exibindo aquele que seria o seu último filme – Tootsie – apresentando grande sucesso de bilheteria. Em frente ao prédio, estudantes e representantes de várias entidades civis empunhavam cartazes tentando sensibilizar a população para a iminência de sua perda. A verdade é que apesar das tentativas destes grupos mais esclarecidos, a população ficou à margem de todo o processo, muitas vezes sem entender o que realmente acontecia. Faltava envolvimento? Faltava conscientização? Até então não existiam trabalhos de educação patrimonial e a perda de elementos culturais não parecia incomodar a grande maioria da população.

No dia 3 de maio, o Conselho Curador do IEPHA/MG, após exame do processo, aprovou por unanimidade o tombamento provisório do Metrópole. A decisão recebeu o apoio de grande parte dos intelectuais da capital. No entanto no dia 17 de maio, uma manifestação de estudantes em prol do tombamento foi duramente reprimida pela polícia em frente ao cinema. No dia seguinte às manifestações, os donos daquele espaço cultural entraram com recurso no IEPHA/MG contra a decisão do Conselho Curador.

O Conselho curador se reuniu novamente em 26 de maio para examinar questões relativas ao tombamento do cinema. Após análise dos documentos que continham pareceres favoráveis à impugnação e a contra-argumentação do IEPHA/MG, o Conselho votou pela confirmação do tombamento. Em contra partida, no dia seguinte os proprietários fecharam o cinema.

Surpreendentemente, o Governo do Estado buscando “respaldo técnico que o subsidiasse na decisão” referente ao assunto, criou em 28 de maio uma Comissão Especial com o objetivo de examinar o caso. A criação desta comissão formada por conceituados intelectuais e artistas foi o primeiro grande desrespeito ao IEPHA/MG e ao próprio instrumento do Tombamento, contrariando toda a legislação sobre o tema uma vez que o Conselho Curador é a instância máxima nas decisões sobre o tombamento cabendo, a essa época, a assinatura do decreto de tombamento ao Governador do Estado. A criação desta Comissão Especial, já nos permitia antever a posição do Governo sobre o caso.

Ainda em maio, no dia 31, a presidente do IEPHA/MG, Suzy de Mello, enviou ofício ao governador explicando a decisão do Conselho Curador e propondo que o tombamento em questão fosse efetivado por decreto. Suzy de Mello pedia apenas que se respeitasse a legislação e a decisão do Conselho Curador do IEPHA/MG, ignorando a absurda Comissão Especial.

No mês seguinte, em 10 de junho, ao tomar conhecimento de que poltronas haviam sido retiradas do cinema, a direção do IEPHA/MG enviou ofício aos donos lamentando o fato e informando que o órgão estaria atento a qualquer atitude de desrespeito ao tombamento. Ainda naquele dia, o IEPHA/MG solicitou empenho à prefeitura para ser evitada a expedição de alvarás que visassem a descaracterização da edificação ou à sua demolição. Três dias depois, constatou-se novamente ação de desrespeito da proprietária, que iniciara a destruição do interior do cinema. Diante disso, o IEPHA/MG solicitou providências ao governo e à Procuradoria Geral do Estado. Á Empresa Cinemas e Teatros Minas Gerais foi enviado novo ofício pedindo a paralisação imediata das obras e comunicando as penalidades a que estaria sujeita pelo desrespeito à proteção legal.

Porém, as tentativas do órgão de paralisar a demolição não surtiram efeito. Nenhuma atitude foi tomada pelo governo para impedir o desrespeito à legislação de proteção do patrimônio cultural ou mesmo para facilitar a visita do IEPHA/MG ao prédio. Em 13 de julho a presidente do IEPHA/MG elaborou ofício sugerindo o não-tombamento do cinema devido às descaracterizações que sofrera, atrelando a resolução à aplicação de penalidades à empresa proprietária e a criação de um cine teatro no novo prédio a ser construído. No mesmo dia, através de outro ofício, pediu demissão do cargo, alegando compromissos particulares. Justificando que não havia mais motivo para o tombamento, Suzy de Mello acabou por decidir o destino do Cine Metrópole e finalizando sua carreira como presidente do IEPHA/MG. O tombamento poderia ter sido mantido mesmo estando o prédio descaracterizado. Havendo empenho do Governo, soluções poderiam ser encontradas para a gestão do bem cultural em parceria com os proprietários. Por outro lado, a própria Presidente do IEPHA/MG desrespeitou Conselho Curador quando não lhe apresentou sua posição. A Comissão Especial que em suas várias reuniões não conseguiu assumir uma posição com relação ao caso, agradeceu com alívio o ofício da conceituada presidente do IEPHA/MG.

Em 21 de julho de 1983, a Comissão Especial criada pelo governo em total desrespeito às decisões do Conselho Curador, subscreveu totalmente as ponderações e recomendações do ofício da Presidente do IEPHA/MG, encaminhando o documento ao governador. Um mês depois da decisão da Comissão Especial, em 23 de agosto, o Governador em despacho deixou de tombar o Cine Metrópole. Saiu-se muito bem da história, uma vez que balizava sua decisão nas sugestões da conceituada Presidente do IEPHA/MG e dos membros da Comissão Especial:

“O Governo do Estado de Minas Gerais, tendo em vista a conclusão a que chegou a Comissão constituída em 28 de maio de 1983, bem como o relatório da Presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico - IEPHA/MG e da Assessoria Técnica-Consultiva do Governador do Estado, com base no parágrafo único do artigo 5º do Estatuto baixado com o Decreto n.º 14.374, de 10 de março de 1972, deixa de determinar o tombamento do prédio do Cine Metrópole, nesta capital.”(Despacho do governador Tancredo de Almeida Neves, 23 ago. 1983)

As punições sugeridas no oficio da presidente do IEPHA/MG não foram aplicadas aos donos. Claro, como se poderia punir alguém por destruir um bem considerado legalmente “sem importância” para a cidade? Um bem destombado.

Após este desfecho, a Cinemas e Teatros Minas Gerais, em 29 de agosto entrou co novo pedido de alvará para demolição do Metrópole na prefeitura. As obras de demolição iniciaram em 5 de setembro ainda sem a autorização da licença expedida apenas em 23 de dezembro.

Com a demolição já em estado avançado, em 6 de outubro foi realizado em frente ao antigo Cine Metrópole, na praça Professor Alberto Deodato, um ato contra a destruição do prédio, organizado por várias entidades. Ironicamente, o Bradesco concluíra a compra do terreno, estabelecendo o prazo de 45 dias para que a ex-proprietária entregasse o terreno, livre e desembaraçado.

Em 1º de agosto de 1985, transcorridos quase dois anos do fim do Metrópole, o projeto do edifício-sede do Bradesco obteve a aprovação inicial e alvará de construção. A obra se arrastou por vários anos, recebendo a baixa de construção e o habite-se em 9 de abril de 1991.

Durante o ano de 1983, em que o Cine Metrópole simbolizou o destino de Belo Horizonte, seus defensores participaram ativamente em prol de sua preservação. Para muitos belo-horizontinos, a sua destruição significou o início de uma longa reflexão sobre o patrimônio de sua cidade e as ações que deveriam ser empreendidas em sua defesa.

O caso Metrópole, uma das mais emblemáticas derrotas dos preservacionistas em Minas Gerais, mostrou a fragilidade das instituições e a necessidade de expandir a discussão para todos os segmentos da sociedade. Somente a representatividade, a conscientização e o envolvimento das comunidades podem fazer frente à ganância, o poder e prepotência dos especuladores imobiliários. O tombamento ainda é um dos grandes instrumentos na defesa do patrimônio cultural, mas é apenas o começo da proteção e da responsabilidade compartilhada entre a sociedade, governo e proprietários. Preservar implica em cuidar, revitalizar, dar novo uso compatível com as características do bem cultural.

Quis o destino que a consciência da cidade para valorização de seu acervo cultural fosse tocada pela destruição de um cinema chamado Metrópole. Ponto de encontro de várias gerações, o cinema que tantos divertiu nas décadas de 40 a 80, perdeu-se na vertigem do tempo e do progresso descaracterizador.

No entanto, o Cine Metrópole persiste na memória dos que o defenderam ou que apenas assistiram passivamente à sua destruição, permanecendo vivo para história da capital como um exemplo, um marco, um alerta para o futuro.

O TREM

O TREM
Autor: Carlos Henrique Rangel

Vovô Carlos, Paulinho e Rita estavam viajando de carro para conhecerem a cidade de São João Del Rei. Os meninos não se continham de alegria correndo os olhos pela estrada.

- Falta muito Vovô? – Perguntou Rita se inclinado para o avô que dirigia com toda a atenção.

- Ah, minha neta, apenas começamos a nossa viagem.

- Fica fria Rita. Curte a paisagem... E os buracos...- Falou Paulinho balançando com o solavanco do carro.

Vovô Carlos riu.

- É, realmente a estrada está bastante ruim. – Disse o velho senhor.

- Se continuar assim vai demorar muito para chegar. – Falou o menino.

- É mesmo meu menino. Antigamente... Quando eu era criança, as viagens demoravam, mas eram bem seguras e divertidas...

- As estradas eram melhores? – Perguntou Rita.

- Ah... Minha menina, quando eu era pequeno viajava de Trem e as estradas de ferro eram muito seguras...

- De Trem? Eu nunca ví um Trem de ferro... Quero dizer, só ví no cinema e na televisão. Coisas enormes que andavam em trilhos de ferro. Pareciam grandes cobras. – Disse Paulinho.

- Parece que não tem mais Trem hoje em dia... Só existem os Trens de metrô... – Falou a menina.

- É mesmo minha neta, as viagens de Trem estão acabando ou já acabaram... Mas quando eu era criança as viagens para outras cidades eram feitas de Trem.

- E como era viajar de Trem? – Perguntou Rita curiosa.

- Era bem divertido. O Trem passava por túneis. Passava sobre rios... Parava em todas as estações para deixar ou pegar passageiros e cargas... – Contou o avô emocionado.

- Estações? –Perguntou a menina.
- Devia ser como os pontos de ônibus ou as rodoviárias, não é Vovô? – Disse Paulinho.

- Eram mais ou menos isto. Havia estações de todos os tipos: Pequenas, grandes... Todas lindas. Todas cheias de gente entrando e saindo dos Trens ou despedindo dos amigos ou parentes ou esperando os que chegavam... Também havia aqueles que vendiam coisas aos passageiros: pasteis, doces, picolés, qualquer coisa... As pessoas quando viam o Trem paravam para acenar...

- Uma festa... – Exclamou a menina. O avô riu.

- Para as crianças era uma festa...O apito do Trem. O barulho repetitivo das engrenagens gritando: “café com pão manteiga não”...

- Como? O Trem falava?! – Perguntou Rita assustada.

- Não, minha neta, quando o Trem andava fazia um barulho que parecia dizer repetidamente: “café com pão manteiga não. Café com pão manteiga não”. – Respondeu o avô rindo.

- Que coisa engraçada. – Riu a menina.

- Tudo isto acabou? – Perguntou Paulinho.

- As viagens acabaram ou são poucas... – Disse o velho senhor.

- E as estações? – Perguntou a menina.

- Algumas foram destruídas, outras estão abandonadas ou com outros usos...

- Por que Vovô? Por que as viagens de Trem acabaram? – Perguntou Paulinho curioso.

- Ah... É uma longa história. Mas antes de falar de como acabaram acho que devíamos saber como começaram. Não acham? – Perguntou o Vovô Carlos.

- É mesmo Vovô, a gente não sabe como tudo começou. – Falou Paulinho.

- E como começou? – Perguntou Rita. O Vovô riu.

- Lá vamos nós... A ferrovia com suas locomotivas e estradas surgiram no país chamado Inglaterra há quase duzentos anos atrás e facilitaram o transporte de mercadorias e pessoas que antes eram feitas em carroças cavalos ou burros. Espalharam-se rapidamente por todos os países da Europa, Ásia e para os Estados Unidos. Aqui no Brasil a história da ferrovia começou de fato há pouco mais de cem anos atrás com o empresário Irineu Evangelista de Souza... Ele era um homem de visão, enxergada as coisas melhor que os outros...

- Tinha visão de raio x? – Perguntou a menina.

- Não é isto bobona... – Ralhou Paulinho.

- Então o que é? – Perguntou a menina.

- Eu também não sei. – Falou o menino sem graça. O Vovô Carlos riu.

- Eu explico. O Irineu percebia as coisas melhor que os outros empresários de seu tempo. Percebeu que as ferrovias poderiam transportar grandes quantidades de produtos do interior para o litoral com mais rapidez que as tropas de burros...Queria trazer a ferrovia para o Brasil e trouxe.

- Sozinho? – Perguntou Paulinho.

- Praticamente sozinho. Ele ligou um lugar chamado Porto Estrela na Baia de Guanabara à Serra de Petrópolis inaugurando a primeira Estrada de Ferro do Brasil no ano de 1854.Uma inauguração em grande estilo, com a presença do Imperador D. Pedro II e um monte de gente importante. Por causa deste feito ele recebeu o título de Barão de Mauá e mais tarde passou a Visconde.

- E depois ele fez novas estradas? – Perguntou Paulinho.

- Bem que ele queria levar a ferrovia para o interior do país, mas teve vários problemas políticos e financeiros... – Disse o avô.

- Mas se ele não fez, quem fez? – Perguntou Rita.

- Ah, o governo imperial criou a Estrada de Ferro D.Pedro II que se espalhou pelo interior e chegou aqui em Minas Gerais. Depois vieram as redes ferroviárias particulares que foram unindo as cidades deste Brasil com seus vários ramais. Aqui em Minas existiam 18 redes ferroviárias...

- Nossa! Que tantão! – Espantou-se a menina.

- Muitas né? E estas Estradas levavam produtos do interior para os portos do litoral e traziam produtos importados para as cidades distantes. As Marias-fumaças traziam o progresso e as novidades...

- Marias-Fumaças? Quem são essas mulheres? – Perguntou Rita.

- Não são mulheres, Maria-Fumaça era o nome carinhoso das máquinas... Os Trens antigos... Soltavam muita fumaça pelas chaminés...A Estrada de Ferro D. Pedro II, depois que o Brasil passou a ser uma república, foi transformada na Estrada de Ferro Central do Brasil. Muitas cidades nasceram por causa das estradas de ferro. Muitas só sobreviveram por causa das estradas de ferro...Bem, em 1957, o governo criou a Rede Ferroviária Federal S. A. unindo todas as ferrovias para melhorar o transporte e solucionar os problemas que estavam ocorrendo.
- Problemas?

- É, algumas ferrovias tinham prejuízos ou projetos mal elaborados... A união pretendia acabar com estes problemas...

- E acabou? – Perguntou Rita.

- É claro que não, né Rita! Se não a gente não estaria viajando de carro nesta estrada ruím. – Falou Paulinho xingando a irmã.

- É mesmo Paulinho, a Rede Ferroviária Federal não resolveu os problemas... Depois vieram as rodovias com suas estradas asfaltadas, os ônibus e os caminhões... O Brasil optou por transportar os produtos agrícolas e minerais nestes caminhões que vemos nesta estrada...

- Que opção burra... – Xingou Rita.

- E tudo acabou.... – Falou Paulinho triste.

- A Rede Ferroviária Federal – a RFFSA – foi privatizada nos anos noventa, passando para várias empresas. O transporte de passageiros parou... Muitos trechos foram completamente destruídos... As estações abandonadas ou recebendo novos usos...

- E agora? – Perguntou Rita querendo saber como tudo isto iria terminar.

- Agora... Bem, existem movimentos de amantes das ferrovias tentando salvar as estações e os conjuntos formados pelos galpões e casas da rede e até reativar alguns trechos das estradas para levar turistas... Algumas das estações viraram museus onde foram colocados Trens, objetos e ferramentas usadas pelos maquinistas e trabalhadores ferroviários e até fotografias antigas. Estes museus contam um pouco da história das ferrovias e das pessoas que trabalharam nelas...Além disto alguns conjuntos foram preservados pelos governos estaduais e municipais... Muitas cidades estão preservando os conjuntos ferroviários e suas estações utilizando-os como sedes administrativas, bibliotecas, casas de cultura e outros tantos usos...

- Eu queria tanto andar de Trem...O senhor nos leva? – Perguntou Rita.

- Claro que levo. – Respondeu prontamente o Avô.

- Eu queria conhecer um museu ferroviário... – Pediu Paulinho.

- Eu prometo que levo vocês para conhecerem um museu ferroviário... Olhem estamos quase chegando... São João Del Rei tem uma estação muito bonita e possui um museu ferroviário muito interessante...
Fim

QUESTIONÁRIO

1 – Sua cidade é servida por linha férrea? Qual Estrada de Ferro?

2 – Sua cidade tem uma estação ferroviária? Quando foi construída?

3 – Funciona como estação? Se a resposta for não, quando deixou de funcionar como estação?

4 – Como está sendo utilizada a sua estação? Concorda com o uso atual? Por quê?

5 – Existem outros prédios da rede ou casas de ferroviários? Como são utilizados?

6 – Quais os produtos da sua terra que eram transportados por trem de ferro?

7 – Quais os produtos que chegavam a sua cidade por trem de ferro?

8 – Como foi sua primeira viagem de trem? Como se sentiu viajando de trem?

9 - Qual a lembrança mais marcante que você tem da ferrovia?

10 – A ferrovia tem algum significado para você e sua vida? Por quê?